Año 2, núm. 14, septiembre de 2026
ISSN 3122-3583
a fondo
Organizar-se para transformar a vida
Severino Lima Junior *
Nota de la Redacción: Fieles a la vocación internacional de El Diluvio, publicamos este texto en sus dos lenguas —el español y el portugués del propio autor, catador brasileño y presidente de la Alianza Internacional de Recicladores—, porque la voz de quienes recorren las calles y los vertederos del mundo merece leerse sin fronteras.
Quem recupera resíduos enfrenta, primeiramente, a urgência de sobreviver. A mudança começa quando se deixa de competir na solidão e se descobre que a organização permite negociar melhores preços, defender direitos e transformar um trabalho invisibilizado em uma força ambiental de alcance mundial.
A organização nasce da base: primeiro na família e no bairro; depois, atravessa cidades, países e continentes.
O primeiro desafio de qualquer catadora ou catador não é construir um movimento. O primeiro desafio é sobreviver.
Quem trabalha nas ruas ou em um lixão vive pensando no dia de hoje. É preciso encontrar material suficiente para vender, garantir a comida da família, pagar as contas e voltar para a rua no dia seguinte. A necessidade é urgente e deixa pouco tempo e pouca energia para pensar em algo além da própria sobrevivência.
Por isso, organizar-se é o primeiro grande passo. É a decisão de olhar além da necessidade imediata. É entender que, embora cada um trabalhe de forma individual ou com sua família, os problemas que enfrentamos são coletivos.
Uma vez ouvi um companheiro na Colômbia dizer uma frase que nunca esqueci. Ele dizia que uma liderança das catadoras e dos catadores tem as mãos no lixo, mas a cabeça muito além dele. As mãos continuam tocando o material reciclável, porque nunca deixamos de ser trabalhadores. Mas a cabeça começa a enxergar o bairro, a cidade, o país e, com o tempo, o mundo.
É aí que tudo começa a mudar.
Percebemos que não estamos sozinhos.
Descobrimos que existem milhares de pessoas fazendo exatamente o mesmo trabalho que nós. Enfrentando as mesmas dificuldades. Sofrendo as mesmas injustiças. Lutando todos os dias para sustentar suas famílias.
E quando entendemos isso, deixamos de pensar apenas em nós mesmos e começamos a construir uma comunidade.
A organização nasce assim, de baixo para cima.
Primeiro na família.
Depois entre os companheiros que trabalham no mesmo lixão ou no mesmo bairro.
Mais tarde entre organizações da mesma cidade, do mesmo estado e do mesmo país.
E assim vamos construindo organizações maiores, porque aprendemos que ninguém conquista grandes mudanças sozinho.
Mas organizar-se nunca significou apenas estar junto.
Significou transformar a forma como trabalhamos.
Quando cada catador vende sozinho, normalmente vende pouco, vende barato e depende dos atravessadores.
Quando nos organizamos, conseguimos vender coletivamente, negociar melhores preços, reduzir a intermediação, melhorar a qualidade dos materiais e aumentar a renda das nossas famílias.
Um trabalhador isolado vende pouco e barato; uma cooperativa pode negociar, reduzir intermediários e ganhar voz.
A organização melhora nossa economia.
Mas ela também protege nossos direitos.
Durante muitos anos tentaram tirar os catadores das ruas, impedir nosso acesso aos materiais recicláveis ou tratar nosso trabalho como se fosse um problema para as cidades.
Sozinho, um trabalhador quase nunca consegue enfrentar essas decisões.
Organizados, passamos a ter voz.
Uma voz capaz de dialogar, negociar e também exigir respeito.
Uma voz que chega aos governos para defender nossos direitos.
Uma voz que conversa com as empresas compradoras de recicláveis e com a indústria
de embalagens, lembrando que uma parte importante da matéria-prima utilizada por elas existe graças ao trabalho das catadoras e dos catadores.
Nosso trabalho reduz a exploração da natureza, diminui a poluição, prolonga a vida útil dos aterros sanitários e presta um serviço ambiental indispensável para toda a sociedade.
Organizar-se também significa aprender.
Muitas lideranças tiveram que aprender sobre leis, políticas públicas, economia, mercados, reciclagem, negociação e representação.
Sem deixar de ser catadores, nos tornamos também porta-vozes do nosso povo.
E aprendemos outra lição muito importante.
Descobrimos que nossa luta não termina na fronteira do nosso país.
Quando uma catadora brasileira conversa com um companheiro da Colômbia, da Índia, da África do Sul ou de tantos outros lugares, percebemos que as diferenças culturais existem, mas os desafios são muito parecidos.
Todos queremos reconhecimento.
Todos queremos trabalho digno.
Todos queremos viver do nosso trabalho com respeito e justiça.
As mãos continuam nos resíduos, mas o olhar organizado alcança o bairro, o país e o mundo.
Foi assim que nasceram organizações nacionais fortes, a Rede Latino-Americana e do Caribe de Catadores e, mais tarde, a Aliança Internacional de Catadores.
Esses espaços nos permitiram aprender uns com os outros, construir solidariedade e defender causas comuns.
Também aprendemos muito com organizações parceiras, universidades, sindicatos, movimentos sociais, organizações ambientalistas e organismos internacionais que caminharam ao nosso lado durante todos esses anos.
Mas existe uma coisa que nunca podemos esquecer.
Toda reunião.
Toda política pública.
Toda negociação.
Toda parceria.
Toda conquista.
Só faz sentido se melhorar a vida da catadora que está separando material em um galpão, do companheiro que empurra seu carrinho pelas ruas ou da família que continua trabalhando em um lixão.
É por eles que existimos.
É para eles que construímos nossas organizações.
Organizar-se para além das fronteiras nunca foi um objetivo em si mesmo.
Foi o caminho que encontramos para transformar trabalhadores invisíveis em sujeitos de direitos, mostrar ao mundo o valor do nosso trabalho e construir cidades mais limpas, economias mais justas e um planeta mais sustentável.
Porque, quando os catadores se organizam, não mudam apenas as suas próprias vidas.
Eles ajudam a transformar a sociedade.
* Reciclador e presidente da Aliança Internacional de Recicladores (IAWP).
Quien recupera residuos enfrenta primero la urgencia de sobrevivir. El cambio comienza cuando deja de competir en soledad y descubre que organizarse permite negociar mejores precios, defender derechos y convertir un trabajo invisibilizado en una fuerza ambiental con alcance mundial.
La organización nace desde abajo: primero en la familia y el barrio; después cruza ciudades, países y continentes.
El primer reto de cualquier recicladora o reciclador no es organizar un movimiento. El primer reto es sobrevivir.
Quien trabaja en un vertedero o recorre las calles empujando un carro cargado de materiales reciclables vive pendiente del día de hoy. Hay que encontrar suficiente material para venderlo, comprar la comida, pagar el transporte, llevar algo a la casa y volver a empezar al día siguiente. La urgencia de las necesidades propias y de la familia deja muy poco tiempo para pensar en algo más.
Por eso, organizarse representa el primer gran salto. Significa decidir mirar más allá de la propia supervivencia. Significa entender que, aunque cada uno recoge materiales de manera individual o en familia, los problemas que enfrentamos son profundamente colectivos.
En Colombia escuché una vez una frase que nunca olvidé. Un compañero decía que un verdadero líder o lideresa recicladora tiene las manos en la basura, pero la cabeza mucho más allá de ella. Sus manos siguen tocando el material reciclable, porque nunca dejamos de ser trabajadores. Pero su mirada comienza a abarcar el barrio, la ciudad, el país y, con el tiempo, incluso el mundo.
Ese cambio de mirada transforma también nuestra manera de entendernos.
Descubrimos que no estamos solos. Que otras personas realizan exactamente el mismo trabajo. Que enfrentan las mismas dificultades, sufren las mismas injusticias y luchan por alimentar a sus familias igual que nosotros.
Y cuando comprendemos eso, ocurre algo extraordinario: dejamos de competir entre nosotros y comenzamos a construir comunidad.
La organización nace así, desde abajo.
Primero en la familia.
Después entre quienes compartimos el mismo vertedero.
Luego entre quienes trabajamos en el mismo barrio o la misma ciudad.
Más adelante entre organizaciones de una región.
Y finalmente entre organizaciones nacionales, continentales y mundiales.
Cada nivel de organización fortalece al anterior.
Porque, efectivamente, la unión hace la fuerza.
Pero organizarse nunca ha significado solamente estar juntos.
Ha significado cambiar la manera como trabajamos.
Cuando cada reciclador vende individualmente, normalmente vende poco, vende barato y depende de intermediarios que concentran el poder del mercado.
Cuando nos organizamos podemos vender colectivamente, negociar mejores precios, reducir la intermediación, acceder a infraestructura, mejorar la calidad del material y generar mayores ingresos para nuestras familias.
Un trabajador aislado vende poco y barato; una cooperativa puede negociar, reducir intermediarios y ganar voz.
La organización mejora la economía.
Pero también protege nuestros derechos.
Durante décadas los recicladores hemos sufrido políticas públicas que pretendían expulsarnos de las calles, prohibirnos acceder a los residuos o impedir nuestro trabajo en nombre del orden, la modernización o la limpieza de las ciudades.
Frente a esas decisiones, un trabajador aislado tiene muy pocas posibilidades de defenderse.
Una organización tiene voz.
Y esa voz puede dialogar, negociar y también exigir.
Puede sentarse frente a los gobiernos para reclamar reconocimiento.
Puede dialogar con las empresas recicladoras y con la industria de envases y empaques.
Puede recordarles que buena parte de la materia prima que utilizan proviene del trabajo de miles de recicladoras y recicladores que recuperan materiales sin destruir nuevos recursos naturales.
Puede demostrar que nuestro trabajo genera beneficios económicos, sociales y ambientales para toda la sociedad.
La organización también nos obliga a aprender.
Muchos líderes recicladores tuvieron que convertirse, casi sin darse cuenta, en negociadores, investigadores, voceros, administradores y educadores.
Aprendimos sobre leyes.
Sobre políticas públicas.
Sobre mercados.
Sobre cadenas de reciclaje.
Sobre economía.
Sobre derechos humanos.
Sobre cambio climático.
Y aprendimos algo todavía más importante.
Aprendimos que no estamos solos en el mundo.
Cuando un reciclador brasileño conversa con una recicladora colombiana, una recicladora india o un compañero de Sudáfrica, descubre que las diferencias culturales son enormes, pero que las luchas son sorprendentemente parecidas.
Todos buscamos reconocimiento.
Todos queremos condiciones dignas de trabajo.
Todos queremos que nuestro trabajo sea valorado y remunerado justamente.
Las manos siguen en los residuos, pero la mirada organizada alcanza el barrio, el país y el mundo.
Por eso fueron naciendo organizaciones nacionales, redes regionales como la Red Latinoamericana y del Caribe de Recicladores, y posteriormente la Alianza Internacional de Recicladores.
No se trata solamente de crear nuevas organizaciones.
Se trata de construir solidaridad.
De compartir aprendizajes.
De apoyarnos cuando uno de nosotros enfrenta una amenaza.
De celebrar juntos las victorias.
Y también de aprender de otros movimientos sociales, de sindicatos, universidades, organizaciones ambientalistas, fundaciones y organismos internacionales que han acompañado nuestra lucha y nos han ayudado a fortalecer nuestras capacidades.
Sin embargo, todo ese esfuerzo tiene sentido únicamente si nunca olvidamos de dónde venimos.
Cada reunión internacional.
Cada política pública.
Cada negociación.
Cada alianza.
Debe servir para mejorar la vida de la recicladora que hoy clasifica residuos en un galpón.
Del reciclador que empuja un carro durante kilómetros bajo el sol.
De quien trabaja en un vertedero buscando entre los residuos el sustento de su familia.
Porque allí comenzó nuestro movimiento.
Y hacia allí deben regresar siempre nuestros esfuerzos.
Organizarse más allá de las fronteras nunca ha sido un objetivo en sí mismo.
Ha sido la forma que encontramos para que quienes durante mucho tiempo fueron invisibles pudieran reconocerse, hacerse escuchar y demostrar que su trabajo sostiene ciudades más limpias, economías más circulares y un planeta más habitable.
* Reciclador y presidente de la Alianza Internacional de Recicladores (IAWP).



























